
Caio Alves da Gama
Colunista
Práticas ancestrais e inovações da medicina regenerativa se misturam na busca incessante por uma pele perfeita, revelando tratamentos estéticos que desafiam o convencional e levantam questões sobre sua eficácia e respaldo científico.
Na vanguarda dos procedimentos estéticos na Coreia do Sul, a clínica You & I popularizou um tratamento que utiliza minúsculos fragmentos de DNA de esperma de salmão. A proposta, segundo o médico especializado em estética Kyu‑Ho Yi, da clínica e professor da Universidade Yonsei, não é volumizar a pele, mas sim bioestimulá-la, promovendo um ambiente dérmico mais saudável e sua recuperação. Essa abordagem tem suas raízes na medicina regenerativa e na cura de feridas, onde o DNA de peixes demonstrou potencial para estimular o reparo tecidual.
Estudos preliminares sugerem que polinucleotídeos purificados do esperma de salmão podem auxiliar na redução de linhas de expressão, melhorar a hidratação, a gordura, a textura e a rugosidade da pele, conforme apontado pelo professor de dermatologia Joshua Zeichner, do Hospital Mount Sinai, nos Estados Unidos.
A busca pela beleza não é novidade e a história registra práticas consideradas curiosas. A rainha Cleópatra, por exemplo, supostamente se banhava em leite de burra azedo. Já em Mianmar, a pasta de casca de árvore moída conhecida como thanaka é usada há séculos para fins decorativos e de proteção solar. Remédios romanos para manchas incluíam o intestino moído de crocodilos filhotes.
Mais recentemente, um estudo sobre produtos de tratamento de pele da Itália do século 12, mencionados por Trota de Salerno, revelou que ingredientes como vinagre e feijão-fava ainda são eficazes para higiene, esfoliação e tratamento de pele ressecada. O ácido tartárico, um extrato de óleo de tártaro, é um exemplo de ingrediente natural com aplicação moderna.
A medicina estética moderna também explora ingredientes inusitados. O cocô do rouxinol-bravo-japonês, descoberto há séculos, é utilizado em tecidos como removedor de tinta e, curiosamente, tem sido empregado no Japão para clarear a pele e remover maquiagem. Segundo Zeichner, a ureia e a guanina presentes nos excrementos desses pássaros podem suavizar, hidratar e clarear a pele.
Apesar dos potenciais benefícios, é importante notar que muitos estudos são financiados pela indústria da beleza. Outras terapias, como a máscara menstrual (sangue da menstruação), geram ceticismo. Embora um estudo de 2018 tenha sugerido que o plasma menstrual pode curar feridas, a pesquisadora Beibei Du-Harpur, do King's College de Londres, mostra-se mais otimista em relação às injeções de plasma rico em plaquetas (PRP), ou "tratamento facial vampírico". Este procedimento, que envolve a reinjeção do próprio sangue do paciente, concentra fatores de crescimento que podem auxiliar na regeneração celular, embora o grau de sucesso varie individualmente.
Cientistas vislumbram para a próxima geração de terapias novas formas de suplementação de colágeno. Um estudo recente financiado pelo setor dermocosmético indicou que aminoácidos específicos para suplementação podem melhorar textura, hidratação, elasticidade e até reduzir a idade biológica da pele.
Outras linhas de pesquisa exploram a manipulação do microbioma da pele, com o desenvolvimento de prebióticos e posbióticos. Pesquisadores sul-coreanos descobriram uma bactéria capaz de produzir posbióticos com potencial para reduzir inflamações e danos ao colágeno. No entanto, para Zeichner, a eficácia de qualquer novo tratamento deve superar as soluções comerciais já estabelecidas. Ele enfatiza a importância de uma rotina consistente de cuidados com a pele, incluindo o uso de filtro solar e hidratação noturna com ingredientes como retinol, em detrimento de tratamentos pontuais e caros.
Referência: Informações adaptadas de G1.
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